O Anjo da Paz, Anjo de Portugal

O Anjo da Paz em Fátima

Antes das aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria em 1917, Lúcia, Francisco e Jacinta tiveram três visões do Anjo de Portugal.

Entre junho e agosto de 1916, Lúcia e seus priminhos Francisco e Jacinta conduziam suas ovelhinhas como de costume, até que, num dia de muito calor, foram ter a um lugar chamado Chousa Velha, um pouco a oeste de Aljustrel, no meio de um olival.

Estavam os pastorinhos a brincar quando subitamente o céu se escureceu e se espalhou uma névoa espessa. Lembraram-se então da Loca do Cabeço, perto de onde o rebanho pastava. A toda pressa, abrigaram as ovelhas debaixo de uma árvore frondosa e correram ladeira acima a refugiar-se naquela cavidade. Era o que de melhor havia por ali, e os três continuaram a brincar.

Passado um tempo, os pastorinhos merendaram, rezaram o terço e mal terminaram de rezar, a chuva cessou e o sol voltou a brilhar. Os três começaram a divertir-se atirando pedras para o fundo do vale.

De repente levantou-se um vento, um vento estranho; olharam espantados as árvores agitadas e deram com um clarão, vindo do nascente, que se aproximava cada vez mais forte, cada vez mais esplendoroso.

Lúcia reconheceu a alvura singular daquela “estátua de neve”, transparente pelo sol, que um ano antes vislumbrara com outras meninas (“Parecia uma pessoa embrulhada num lençol”).

Mas desta vez a luz aproximou-se tanto que, ao chegar à pedra da entrada da loca, puderam distinguir a forma de “um jovem dos seus catorze a quinze anos, mais branco que se fora de neve, que o sol tornava transparente como se fora de cristal”, descreve Lúcia. Podiam ver agora perfeitamente os traços de um rosto humano de indescritível beleza. Estupefatos, emudecidos, contemplavam-no paralisados.

 

1ª visão do Anjo em Fátima (reprodução de filme)

 «Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo!»

Ajoelhou em terra e curvou a fronte até o chão. Os pastorinhos imitaram-no e repetiram as suas palavras:

«Meu Deus, eu creio, adoro, espero e Vos amo. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.»

Mais duas vezes o Anjo pronunciou aquela oração e depois recomendou-lhes:

«Orai assim. Os corações de Jesus e Maria estão atentos às vossas súplicas.»

Então desapareceu.

A oração gravou-se de tal forma na mente de Lúcia e Jacinta (Francisco não chegara a ouvi-la) que nunca mais a esqueceram e, a partir desse instante, a repetiam muitas vezes por longo tempo, até caírem de cansaço.

Depois da aparição, os três sentiam-se fracos e aturdidos. Aos poucos, foram-se refazendo e começaram a reunir o rebanho, pois entardecia. Ao longo do caminho de volta para Aljustrel, nenhum deles tinha vontade de falar. Lá se iam calados, silenciosos, pensativos…

Era o aviso do Céu que escolhera aqueles corações pequeninos para coisas grandes.

Marco da 1ª visita do Anjo em Fátima

Sacrifícios e orações pelos pecadores

A segunda visita do Anjo se deu semanas depois. As crianças foram passar em casa as horas mais quentes do dia e brincavam junto do poço, quando, subitamente, viram junto deles a mesma figura.

«Que fazeis? Orai, orai muito. Os corações santíssimos de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente, ao Altíssimo, orações e sacrifícios.»

– Como nos havemos de sacrificar?, perguntou Lúcia.

«De tudo o que puderdes, oferecei a Deus sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores. Atraí assim, sobre a vossa pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar.»

E desapareceu.

As crianças ficaram tolhidas de espanto e novamente permaneceram numa espécie de êxtase. Quando recuperaram o domínio de si, Francisco foi o primeiro a falar. Tinha visto o Anjo mas novamente não ouvira suas palavras. Somente no dia seguinte Lúcia pôde lhe contar o que havia dito o Anjo. Ainda se passou mais um dia para que conseguisse reunir as idéias e explicar, como podia, quem era o Altíssimo, e o que significava “os Corações de Jesus e Maria estão atentos às vossas súplicas”.

Jacinta dizia ao irmão:

– Tem cuidado, nestas coisas fala-se pouco. – E continuava – Quando falo no Anjo não sei o que me acontece; não posso falar, nem brincar, nem cantar… Não tenho forças para nada…

– Nem eu também – dizia Francisco. – Mas que importa?… O Anjo é mais que tudo isso: pensemos nele!

Desde então, o menino pôs-se a refletir sobre o que o Anjo quisera dizer ao falar de sacrifícios e começou a rivalizar com a irmã e a prima na renúncia a pequenos prazeres e satisfações, em reparação pelos pecadores.

Os três passavam horas e horas prostrados em terra a repetir sem cessar a oração que o Anjo lhes ensinara.

Reparações ao Santíssimo Sacramento

Passaram-se três meses. Estavam os pastorinhos novamente na gruta do Cabeço e, depois de rezarem o terço, como de costume, puseram-se a recitar juntos a oração.

Acabavam de repeti-la mais uma vez quando subitamente a mesma luz cristalina brilhou novamente sobre o vale e o Anjo tornou a aparecer-lhes: belo, resplandecente, deslumbrante, suspenso no ar. Trazia numa mão um Cálice e, sobre ele, com a outra mão, segurava uma Hóstia. Deixou-os suspensos no ar, prostrou-se por terra e disse:

«Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.»

Repetiu três vezes essa oração com as crianças. Depois levantou-se, tomou novamente o Cálice e a Hóstia e deu a Comunhão a Lúcia, dando o Cálice a beber aos dois irmãozinhos, dizendo:

«Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus.»

De novo em adoração, repetiu a súplica à Santíssima Trindade. E desvaneceu-se na luz do sol.

A sensação da presença de Deus nessa ocasião foi muitíssimo mais intensa e deixou-os tão exaustos que, dias depois, Francisco comentava:

– Gosto muito de ver o Anjo; mas o pior é que, depois, não somos capazes de nada. Eu nem andar podia!

Isso tudo aconteceu quando Lúcia tinha nove anos, Francisco, oito, e Jacinta, seis. Nenhuma das crianças contou sobre a aparição do Anjo, nem em casa nem em parte alguma. Somente na Segunda Memória, escrita em 1937, é que Lúcia se refere incidentalmente ao Anjo da Paz, relato inesperado pelos 21 anos de ocultamento, e que causou grande surpresa.

Textos relacionados

Marco da aparição nos ValinhosMarco da aparição nos Valinhos
Fátima, 19 de agosto de 1917 -...
No domingo seguinte, dia 19 de agosto à tarde, Lúcia,...
Leia mais...
Peregrinos em Fátima, 1917Peregrinos em Fátima, 1917
Fátima, 13 de setembro de 1917 -...
O número de devotos de Nossa Senhora de Fátima ia...
Leia mais...
Visão do 3º segredo, reprodução do filme 13º diaVisão do 3º segredo, reprodução do filme 13º dia
Fáima, 13 de julho de 1917 -...
Maria Rosa, mãe de Lúcia, sentiu-se aliviada quando, no dia...
Leia mais...

One thought on “O Anjo da Paz em Fátima

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *